sábado, 14 de abril de 2012

"A música é meu alimento"

Voz serena, argumentos equilibrados, lembranças vivas, histórias que  ilustram não apenas a trajetória da cantora, mas, principalmente, trazem muito da pessoa, do que é e do que busca. Havia planejado a entrevista com a cantora Jane Duboc para discorrer sobre a música e a carreira de quatro décadas como artista. Mas logo nos primeiros minutos me deparei com uma pessoa multifacetada, que além dos palcos da música atua nos palcos do teatro, escrevendo peças infantis, da literatura, também como autora de livros para crianças, e, além de tudo, um ser humano que volta a estudar, dessa vez para conhecer o próprio ser humano. Jane Duboc, além de toda carreira como escritora e cantora, estuda Psicanálise. 
Jane Duboc, cantora: Eu acordo pela manhã já com um impulso no coração 'vambora para vida, vambora para luta, olhe o céu azul'.imagem > Divulgação>>> Jane Duboc, cantora: Eu acordo pela manhã já com um impulso no coração 'vambora para vida, vambora para luta, olhe o céu azul'.

Novidade? Não. Muito longe disso, a interseção entre a vida de Jane e o universo da Psicologia surgiu há muito tempo. Quando viajou para os Estados Unidos, aos 17 anos, na época a intenção era estudar Psicologia. O que ela não imaginava era que seria em solo americano que faria a profissionalização como cantora e depois desembarcaria no Brasil para seguir direto aos palcos da música. No entanto, a carreira musical não tornou opaco o desejo da artista para aprender sobre o próprio universo do ser humano. Jane já estudou dois anos de Psicologia e há dois anos e meio está cursando Psicanálise. "Eu gostaria também de ser era uma psicanalista, uma psiquiatra para ajudar os jovens com desequilíbrio, crianças com desequilíbrio. Eu acho bonita essa profissão", comenta. Esta semana Jane Duboc se apresentará no palco do Teatro Riachuelo. Participará do show "Um encontro cheio de bossa", que será apresentado no próximo sábado. Ao lado dela, estarão Danilo Caymmi, Roberto Menescal e Miele.  

A entrevistada de hoje do 3 por 4 é uma pessoa que encanta logo no primeiro momento, a partir da serenidade da própria voz, uma cantora de muitas histórias, uma artista famosa que mantém o desejo de aprender em outros segmentos, uma estudante de Psicanálise que com sua música leva aconchego às pessoas. Com vocês, Jane Duboc.

Você é uma cantora que sempre esteve nos palcos mas comandando um show seu. Dessa vez você entra em um projeto para show com diversos outros cantores (como Danilo Caymmi, Roberto Menescal e Miele.). Seria um novo momento da sua carreira?

Eu gosto muito de dividir emoções mesmo, novas vertentes, coisas mais antigas. Estou sempre dividindo com outros artistas, sejam da velha guarda ou da nova guarda. Adoro fazer esse tipo de movimento, de estar sempre junto, é verdadeiro. Se é verdadeiro, uma coisa de coração e honesto eu estou dentro. Então a gente é do ramo mesmo. A gente gosta disso. Eles também são parecidos. Menescal está sempre colocando gente nova e dividindo o palco. Eu também faço isso, sempre dividindo o palco com gente nova, diferentes estilos. Eu gosto de música, música é meu alimento mesmo.

Você está com quase 40 anos de carreira. Como definir a trajetória de quatro décadas na música brasileira?

Eu acho que as pessoas sentem quando a verdade jorra. Eu me profissionalizei nos Estados Unidos. A minha intenção era outra, mas quando vi, como sempre cantei desde criança, quando observei eu já estava cantando, ganhando meu dinheiro com música. Abri uma agência de publicidade nos Estados Unidos, cantava nos bares, nas boates, nos clubes, nas igrejas. ou seja, eu estava ganhando a minha vida com a coisa que eu mais amava profissionalmente que era a música. Eu nunca tive aquela ideia de querer ser rica, famosa. Não. Foi naturalmente acontecendo a música, sem ter outro objetivo se não ser feliz mesmo. 

Você disse que seus planos eram outros nos Estados Unidos. Então quais eram seus planos?

Eu queria ser psiquiatra. Eu estou agora estudando Psicanálise há dois anos e meio. Fiz dois anos de Psicologia nos Estados Unidos. Quando estudei em Belém para ser professora primária há muito tempo eu estudei Psicologia. Eu gosto de Psicanálise, de Psicologia. Adoro e no entanto sou cantora. Mas, realmente, a coisa que eu mais gostaria também de ser era uma psicanalista, uma psiquiatra para ajudar os jovens com desequilíbrio, crianças com desequilíbrio. Eu acho bonita essa profissão.

Então quando você foi para estudar nos Estados Unidos o seu sonho era ser psiquiatra?

Eu não tinha sonho, eu tinha um desejo, tinha um impulso natural. Gostaria de ter sido também, de poder trabalhar com emoções das pessoas, tentar confortá-las, tentar modificar o estado de espírito. Mas, no entanto, a música é um pouco isso também. A música toca as pessoas de uma maneira que modifica sim. 

Você não acha que com sua música dá para ser um pouco "psicóloga"?

Eu acho que tem essa função também, de tocar os corações, mudar o estado de espírito sim. Você tem razão.

Voltando a sua carreira, depois de 40 anos o que pretende Jane Duboc?

Eu estou envolvida com o teatrinho infantil. Eu escrevo livros infantis e peças, faço músicas para crianças. Eu só lancei dois livros até agora, mas os livros não saíram com as músicas. Agora eu pretendo lançar, inclusive, tem projeto aprovado pela Lei Rouanet para poder concretizar essas novas determinações. Eu digo sempre que foi Deus quem me colocou, a gente não escolhe nada. Eu acredito que a gente vai fazendo as coisas sem muito saber. Quando eu vi já estava com um monte de história infantil. Montamos um espetáculo que ficou em cartaz dois meses. É uma coisa que me toca demais é ver a criançada reagindo àquela letrinha da música, rindo na peça. Adoro escrever para criança.

Você é cantora, escreve livro infantil, escreve peça e estuda psicanálise. Não tem receio de perder um pouco o controle do seu próprio tempo com tantas atribuições?

Eu acho que quando a gente distribui o tempo da gente com vontade, com desejos, com alegrias e gratidão nesse planeta a gente tem tempo para fazer as coisas. Aliás, quando mais coisas eu faço mais quero fazer. Eu acordo pela manhã já com um impulso no coração "vambora para vida, vambora para luta, olhe o céu azul". E tudo fica bom, as coisas vão fluindo e o que a gente quer é isso. É tocar o coração do outro, que essa pessoa fique feliz, trocar muita energia. A gente está aqui e não sabe por que. Então tem que fazer da nossa vida, da nossa trajetória que é tão greve, fazer uma coisa feliz, uma coisa tranquila, uma coisa boa, que valha a pena. 

Qual foi seu grande momento na carreira?

Tenho impressão que meu grande momento musical foi na Itália. Estava fazendo um trabalho com meu amigo Toquinho e ele me dava oportunidade de abrir a segunda parte do espetáculo. Eu tocava as músicas minhas e quando acabou o show subiu no palco um senhor elegantérrimo, magrinho, olhando para mim e dizendo "I want a make Cd with you" (eu quero fazer um disco com você)". Eu olhei e reconheci que era uma pessoa que amava, idolatrava e tinha tudo quanto era disco que era o precursor do pool jazz que tanto influenciou a bossa nova, o grande  Jerry Maligan, que é  barítono. Ele é da maior qualidade, fundou o pool jazz. Quando ele disse que queria gravar um disco comigo, logo pensei que aquilo era um prêmio para mim. Como pode uma coisa dessa acontecer? A gente gravou um disco em Nova Iorque chamado Paraíso e parecia um sonho. Ele ao vivo, ele tocando e eu pensando será que é um sonho? Isso foi um dos grandes momentos da minha vida.

Você já teve muitas músicas emplacando na trilha sonora da Rede Globo. Até que ponto isso foi determinante para sua carreira?

Eu sou ser sincera, no Brasil se você não estourar uma música em novela é bem mais complicado. É um país que funciona muito em função da canção que está na trama do escritor. Essa música vai tocar  no rádio, estoura, todo mundo tem como referência e toca em tudo que é canto. Com isso você faz mais show, ganha mais dinheiro, fica mais conhecida. Eu tive muita sorte que foram várias músicas em várias novelas. Isso facilitou um pouco mais a minha entrada nos programas da época de Xuxa, Gugu, Faustão, Globo de Ouro. Isso abriu muito espaço para fazer shows. Foi maravilhoso você ter contato com um público maior. Hoje a gente tem essa história da internet que as pessoas se aproximam de forma imediata. Na minha época não tinha isso. Então era primordial o veículo de televisão e rádio. 

Você fará um show em Natal essa semana. O que esperar desse espetáculo?

Essa fase foi muito importante na vida da gente que é da música brasileira porque nós começamos profissionalmente ouvindo esse tipo de harmonia, esse estilo melódico e também a letra muito positiva, muito tranqüila. A gente tem o temperamento meio parecido, a gente gosta da vida, nós somos pessoas que estamos ligados a natureza, na confraternização. Temos muitos pontos em comum.

Você falou sobre o projeto de escritora. Mas a cantora Jane Duboc, após quatro décadas de carreira, nutre qual projeto hoje?

Eu acabei de gravar um disco com um pianista de jazz, que vai ser lançado em breve e entrei em um quarteto vocal que a gente está gravando também. Gravei agora meu último CD com músicas de Isaac, que é meu filho, e foi todo Inglês com arranjo do Hop Murphy, que é um produtor de James Taylor, Madonna, é um grande pianista. Nesse CD tem participação do Jorge Vercillo, do Milton Nascimento, Pedro Mariano, tem Isabella Taviani e Toninho Orca. Esse é o último CD que estou trabalhando. Fiz vários shows agora em São Paulo. Eu não paro.




Fonte: tribuna do norte

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