Ricardo Araújo - repórter
Otimizar o funcionamento e o atendimento médico nas unidades públicas de Saúde parece ser um desafio dantesco para gestores em todos os níveis do governo. As longas filas de pacientes em busca de atendimento, as recorrentes crises de superlotação e falta de insumos hospitalares, além da ausência de profissionais médicos em número ideal para o funcionamento dos postos e hospitais, fazem parte de uma longa lista de dificuldades enfrentadas diariamente por quem trabalha ou recorre ao serviço público. Uma das saídas encontradas pelo Ministério da Saúde, a classificação de risco dos pacientes, que poderia contribuir para a diminuição de pessoas à espera de atendimento, é pouco conhecida pela população e chega a causar confusão em alguns centros médicos.
"A classificação de risco serve como uma triagem feita por um enfermeiro ou técnico de enfermagem que classifica o estado de saúde do paciente em urgência, emergência ou atendimento laboratorial", explicou a diretora de Enfermagem do Hospital Pediátrico Maria Alice Fernandes, Suyame Ricarte. Ela disse que com a correta aplicação da classificação, o paciente, os profissionais de saúde e a própria unidade médica poderiam funcionar melhor. Ela ressaltou, entretanto, que é preciso orientar a população acerca dos estágios do atendimento e a qual unidade médica recorrer. "As pessoas não sabem a diferença entre urgência, emergência e atendimento de laboratório. Isso complica um pouco", ressaltou Suyame.
Desde que o Hospital Pediátrico Maria Alice Fernandes passou a atender somente casos de urgência e emergência - cores vermelho e amarelo de acordo com distinção do Ministério da Saúde - conforme entendimento entre o Ministério Público Estadual, a Secretaria Estadual de Saúde e a direção da unidade hospitalar, os procedimentos foram otimizados e a superlotação dos corredores e enfermarias não é mais cena constante. "Antes da classificação, as crianças esperavam até seis horas por atendimento ambulatorial aqui no hospital", relembrou a diretora. Atualmente o maior hospital pediátrico público atende apenas casos referenciados por outras unidades de Saúde e é porta aberta para pacientes com risco de morte. Os casos ambulatoriais são encaminhados para os postos da rede básica, cuja responsabilidade de manutenção é do Município.
"Se a atenção básica não funcionar bem, a atenção terciária (hospitais) também não funciona. É uma cadeia", destacou Suyame Ricarte. Um exemplo prático do comentário da enfermeira foi o caso de Luciene Maria de Freitas. Ela deu entrada no Pronto-Socorro Clóvis Sarinho, encaminhada pela Unidade Básica de Saúde do Mirassol. Com sintomas de dengue - náuseas, dores de cabeça e no estômago, além da febre - ela deveria ter recebido atendimento médico na própria unidade básica, o que não ocorreu. Aos enfermeiros que trabalham na classificação de risco do Clóvis Sarinho, a paciente confirmou que não chegou a realizar nenhum exame de sangue ou uma simples aferição da pressão arterial.
De acordo com a gerente do Pronto-Socorro Clóvis Sarinho, Gracinilda Barbosa Ciríaco, este é um clássico exemplo de que a Saúde básica ainda não funciona como deveria em Natal. "A rede básica de Saúde não tem resolutividade. Além das pessoas não entenderem o quão é importante a classificação de risco, muitos profissionais da área médica ainda não se acostumaram com o procedimento", relatou. Atualmente, cerca de 70% da demanda atendida no Pronto-Socorro Clóvis Sarinho é proveniente da própria capital. "Muitos dos pacientes que estão hoje no corredor ou num leito aqui da unidade, deveriam estar recebendo atendimento ambulatorial na rede básica", reiterou Gracinilda.
A secretária municipal de Saúde, Maria do Perpétuo Socorro Nogueira foi procurada para comentar a situação das unidades de Saúde da rede básica e sua possível reestruturação. A reportagem não obteve retorno.
Superlotação no Walfredo Gurgel é constante
O Hospital Walfredo Gurgel foi o primeiro do Estado e da rede pública de Saúde a implementar a classificação de risco dos pacientes. Apesar de realizar atendimentos ambulatoriais, o maior complexo hospitalar de emergência do Rio Grande do Norte deveria atender somente casos de urgência e emergência, como acidentes em geral, vítimas de arma de fogo, queimados, dentre outros. A realidade, porém, é diferente.
"Hoje em dia é muito difícil um paciente procurar o Clóvis Sarinho e não receber atendimento. Por mais simples que o caso seja. É bom deixar claro que a classificação de risco não tem o objetivo de excluir os pacientes do atendimento e sim priorizar quem está num estado de saúde mais complicado, correndo riscos mais sérios", explicou Gracinilda Barbosa Ciríaco. Ela ressaltou que parte das dificuldades enfrentadas hoje no Clóvis Sarinho são reflexo da incorreta regulação dos serviços nas unidades básicas.
Um exemplo do que foi exposto pela servidora do Pronto-Socorro Clóvis Sarinho é o número de moradores de Natal que ocupam os corredores do complexo hospitalar. Até a manhã da quarta-feira passada, dos 31 pacientes que aguardavam uma vaga numa das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do complexo hospitalar, 16 eram moradores da capital. Dos 60 pacientes espalhados em macas pelos corredores, 19 são natalenses. O número corresponde a quase 1/3 do total. Os problemas, porém, não se resumem à capital.
Um morador de Parnamirim, com escoriações sem gravidade pelo corpo após uma queda, foi buscar atendimento junto ao Hospital Deoclécio Marques. Sem ter passado pela classificação de risco ou atendimento básico na unidade, foi encaminhado para o Pronto-Socorro Clóvis Sarinho sem ao menos ter passado pelo processo de limpeza dos ferimentos. Os médicos de plantão consideraram aquilo um absurdo e se diziam indignados.
Além da superlotação do hospital, o aumento na demanda de pacientes ambulatoriais reflete na quantidade de insumos utilizados diariamente. De acordo com Gracinilda Barbosa Ciríaco, os produtos hospitalares precisam ser repostos todos os dias e, por muitas vezes, chega a faltar.
Classificação de risco
Entenda como funciona a divisão dos eixos e suas áreas que compõem a determinação do Ministério da Saúde em classificar o grau do estado clínico do paciente das unidades públicas de Saúde.
Eixo Vermelho
Este eixo está relacionado à clínica do paciente grave, com risco de morte, sendo composto por um agrupamento de três áreas principais: a área vermelha, a área amarela e a área verde.
Área Vermelha é nela que está a sala de emergência, para atendimento imediato dos pacientes com risco de morte, e a sala de procedimentos especiais invasivos;
Área Amarela
composta por uma sala de retaguarda para pacientes já estabilizados, porém que ainda requerem cuidados especiais (paciente críticos ou semicríticos). Hoje, na maioria das vezes, esses pacientes permanecem na sala vermelha, criando dificuldades para o atendimento dos pacientes que chegam com risco de morte, assim como situações muito desagradáveis para os pacientes já estabilizados;
Área Verde
composta pelas salas de observação, que devem ser divididas por sexo (feminino e masculino) e idade (crianças e adultos), a depender da demanda.
Eixo Azul
É o eixo dos pacientes aparentemente não-graves. O arranjo do espaço deve favorecer o acolhimento do cidadão e a classificação do grau de risco.
Fonte: tribuna do norte
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