sexta-feira, 4 de maio de 2012

Novas poupanças renderão menos

 Para permitir a queda dos juros, o governo criou um "gatilho" que vai reduzir o ganho das cadernetas de poupança. Nada muda de imediato, mas, se o Banco Central decidir cortar a taxa básica de juros da economia, a Selic, para 8,5% ou menos - o que pode ocorrer neste semestre, segundo apostas do mercado financeiro - o rendimento passará a ser o equivalente a 70% da taxa Selic mais a variação da TR, em vez do tradicional 0,5% acrescido da TR. Com a Selic a 8,25%, a poupança passa a ter um rendimento menor do que o da antiga fórmula, segundo cálculo do professor Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas. O rendimento anual cairia dos atuais 6,68% para 6,22%.
Dilma detalhou mudanças a empresários e ao conselho político (foto) assegurando que poupanças antigas não serão prejudicadasFábio Rodrigues Pozzebom/ABr>>> Dilma detalhou mudanças a empresários e ao conselho político (foto) assegurando que poupanças antigas não serão prejudicadas

A nova forma de cálculo atingirá os depósitos feitos a partir desta sexta-feira. Para os depósitos antigos, nada muda. As novas cadernetas terão as mesmas características da poupança atual: isenção do Imposto de Renda, rendimentos mensais e liquidez diária. As alterações estão numa medida provisória publicada ontem.

"É um passo histórico, mas é só um passo", disse a presidente Dilma Rousseff, em reunião com líderes partidários da base aliada. Ela acrescentou que o País tem de estar preparado para competir quando a crise internacional acabar, daí a necessidade de seguir cortando os juros. Dilma e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicaram as alterações ontem aos políticos, às centrais sindicais e a um grupo de empresários.

Não encontraram oposição em nenhum dos grupos, apesar de se tratar de um tema tabu, de grande interesse popular e num ano eleitoral. O apoio se baseia em dois pontos: não haverá alteração para as cadernetas antigas e o objetivo é reduzir os juros. "O Brasil enfrenta uma nova situação, porque as taxa de juros todas estão caindo e porque a Selic está caindo", afirmou Mantega. "Se mantivermos a regra atual da poupança, ela se tornará um obstáculo para a continuidade da queda da Selic."

O governo espera que, com a mudança, os bancos passem a cobrar taxas de administração menores, para competir com a caderneta. Mantega mostrou uma comparação para ilustrar esse ponto. Supondo que a Selic caia para 8%, o ganho da caderneta seria de 5,6%. Já um fundo, que paga IR e cobra uma taxa de 1,5%, ofereceria um ganho de 3,5%. "O fundo vai ter de reduzir a taxa de administração para manter o cliente", disse o ministro.

A tendência é que os financiamentos habitacionais também fiquem mais baratos, pois as construtoras contarão com uma fonte de recursos de menor custo. O ministro acredita que esse ganho será repassado aos mutuários novos, pois há forte competição entre bancos nesse segmento. Já os financiamentos antigos devem continuar com a mesma taxa, mas o governo estuda formas de permitir a troca de um empréstimo de taxa elevada por outro mais barato. 

Nas três reuniões que teve ontem para explicar as mudanças na remuneração da poupança, a presidente fez questão de destacar que não tomará qualquer medida abrupta, como o confisco dos recursos ocorrido em 1990, no governo Collor.A presidente pediu cuidado na divulgação do tema, pois admitiu preocupação com interpretações errôneas de que o governo congelará a poupança.

Indústria aprova novas regras

Brasília (AE) - O fato de a mudança na caderneta não afetar os depósitos antigos e de, segundo o governo, "não trazer prejuízo ao pequeno poupador" levou a medida a ser bem recebida por entidades empresariais e sindicalistas. "O governo foi corajoso, porque mexer na poupança à primeira vista pode parecer impopular. Mas acho que quem vai sair ganhando é o trabalhador brasileiro, porque vai ter a poupança ainda como um grande ativo", disse o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. Outro que sustenta a mudança na caderneta para novos correntistas é o presidente da Central Sindical de Profissionais, Antonio Fernandes dos Santos Neto. 

Levantamento feito pelo jornal "O Estado de S.Paulo" mostra que, historicamente, a poupança paga ao investidor menos que 70% da taxa Selic. Dos 191 meses de existência do Copom, em 166 meses o retorno pago pela regra antiga das cadernetas de poupança - que é a Taxa Referencial (TR) somada de juro de 0,5% ao mês - foi menos lucrativo que o novo cálculo.

No pior momento, em 2002, a poupança pagou 8,8% no ano, pouco menos de 50% da Selic daquele período que somou 17,7% nos 12 meses. Pelo histórico, portanto, é coerente o discurso atual do governo de que a nova regra pode ser boa para os poupadores.

Alberto LeandroHenrique Eduardo Alves: medida é necessária e não é paliativaHenrique Eduardo Alves: medida é necessária e não é paliativa
Mudanças dividem líderes da oposição e da base governista


Brasília (AE) - As mudanças nas regras de rendimentos nas cadernetas de poupança dividiram líderes da base governista e da oposição. Os partidos de oposição entendem que as novas regras vão penalizar a parcela mais pobre da população brasileira. "Para o governo é mais fácil mexer no dinheiro do cidadão em vez de cortar na própria carne e diminuir os elevados impostos. A mudança afeta especialmente os pequenos poupadores", disse o líder do PSDB, deputado Bruno Araújo (PE).

O ex-líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), considerou as medidas anunciadas como muito positivas e necessárias. "Essas medidas ajudam a praticar juros bem mais baixos. E a Selic [taxa básica de juros] pode cair para 7% ou 8%, o que se pratica no mundo. O Brasil deixou de ser o campeão de juros altos e pode ter juros ainda mais baixos".

Para o líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que participou da reunião do Conselho Político, disse que o tema central da reunião foi sobre as mudanças anunciadas pelo governo no rendimento da poupança. De acordo com ele, todos os líderes saíram convencidos da necessidade das mudanças. "É um passo que tem que ser dado. A presidente Dilma está convencida disso", disse. "O governo sabe o que quer fazer e sabe aonde quer chegar. Não é coisa improvisada e paliativa", acrescentou Henrique Alves.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deverá se reunir na Câmara para explicar a mudança nas regras de rendimento para a caderneta de poupança. 

O líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), disse que Mantega vai participar de uma reunião na bancada do PMDB já na próxima semana. 




Fonte: tribuna do norte

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